quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Trampolim


O fundo do nosso poço tem um trampolim.

Erick Soledade, Romílson Meirelles, Luiz Octávio Vaz e Victor Ellery. O que posso fazer para agradecer a cada um desse quarteto? Caras, vocês tinham noção que ao transformar uma brincadeira politicamente incorreta de rivais em uma espécie de amuleto da sorte para uma partida contra o Botafogo, estariam criando a simbologia máxima do Flamengo? Vocês tinham noção que ao libertar um urubu amarrado a uma simples bandeira vermelha e preta naquele 31 de maio de 1969 nos epopeicos gramados do Templo do Futebol, estariam criando uma associação eterna do rubro-negro a uma ave que não serve apenas para representar o torcedor pobre, majoritário na torcida flamenga?

Pois é, amigos. É muito mais que isso. O urubu parece enxergar-se ou até SER uma fênix. A ave mitológica que quando morre, renasce das cinzas. O pássaro de fogo que representa a ressurreição. O urubu nada mais é que uma verdadeira reencarnação da fênix. Ou pelo menos o animal a qual esse espírito decidiu tomar posse. Após anos sendo torcedor, concluí que mistificar o urubu dessa forma é a solução mais prática para compreender o espírito de ser flamenguista.

Vejam bem: nossa história é repleta de momentos que até os mais doentes flamenguistas não acreditavam no gol. Flamengo é assim mesmo: no apagar das luzes, dos 35 do segundo tempo pra cima, quando começamos a chorar copiosamente, lidar, mesmo que relutantemente, com a derrota, encarar perplexo o gramado ou a televisão pensando em tudo que provavelmente não vai acontecer, quando viramos religiosos de uma hora pra outra e apelamos pra todas as forças sobrenaturais, eis que surgem Nunes, Petkovic, Rondinelli, Valido, Elias, Márcio Araújo. Inflamados pelos gritos da torcida que sempre joga junto, pelo peso da camisa, pelas cores, eles simplesmente fazem o impossível. Eles renascem das cinzas. O Flamengo sempre foi assim, horando as típicas características do signo de escorpião. Precisa ser desacredito para, assim, surpreender a todos, abalar os desgraçados que ousam subestimar, que creem que a chama, um dia se apagará! Esses caras são uns tolos.

Durante a semana inteira foi assim. Nossa tradição em torneios internacionais é pífia. O sistema defensivo rubro-negro se ajoelhará diante do He-Man que, apesar de genérico, é carrasco. É bom que o Flamengo comece a focar apenas no Brasileirão. Tudo isso se intensificou após os 8 minutos iniciais do jogo de ontem, aposto.

E o que deixa tudo ainda mais divertido é ver que alguns próprios flamenguistas desacreditam do próprio clube. Eu mesmo fico em dúvidas algumas vezes. Entendo isso como essencial para deixar tudo ainda mais gostoso. E entendo também que se o ser humano já nasceu fechado com o vermelho e o preto, seu subconsciente já está acostumado a esse tipo de coisa e já prevê uma vitória mesmo que seu consciente resista a isso. É como se fosse uma longa-metragem dramática de suspense: você passa por uma montanha-russa de emoções e ainda tenta prever o que vai acontecer no final - a questão é que mesmo com aquele pingo de confiança que a pessoa do bem vai conseguir solucionar tudo e derrotar a pessoa do mal, o caminho para o desfecho do filme é um teste psicológico, cardíaco e gera questionamentos se "você realmente está certo" e que a pessoa do bem, diversas vezes em apuros, vai conseguir se safar.

Ser Flamengo é assim. Ser Flamengo não é para os fracos, é renascer das cinzas e jogar com raça, amor à camisa, dedicação até quando mais acreditado. É saber que momentos de apuros fazem parte de nossa história e servem de pretexto para as verdadeiras glórias.

O fundo do poço dos outros times é obscuro, normalmente finalizados por um duro chão que gera sofrimento, dor aos seus torcedores.

O fundo do NOSSO poço tem um trampolim. O nosso mascote tem o espírito de uma fênix. Não espere que os representantes dessa instituição desistam e não se deixem inflamar por isso.

Saudações rubro-negras

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