quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Federico Mancuello, o "Raumdeuter"

A maior das contratações no início de 2016 do Flamengo sem dúvidas foi a do argentino Federico Mancuello. Dado como um meia bastante clássico, inteligente, de boa visão de jogo e um movimento ofensivo acima da média, era tratado como o novo "camisa 10" da gávea, aquele que recuperaria o posto que outrora fora de Zico e passado para o maior dos gringos entre os brasileiros, Petkovic. As análises então se mostravam errôneas, uma vez que Mancu, como muitos carinhosamente o chamam, não tinha as características necessárias para jogar nesta função. Se trata de um jogador raçudo, com um senso de posicionamento brilhante e leitura de jogo tão boa quanto sua tomada de decisão em um curto espaço de tempo, mas que pecava em outros atributos, como drible e agilidade, necessários para bater uma marcação mais firme no meio de campo.

Aos poucos, começava a ser visto como um jogador produtivo para o time, mas que jamais poderia ser considerado um craque, um patrão. Pois bem. De fato, Mancuello contribuiu bastante durante o Campeonato Brasileiro, como naquele belíssimo gol de letra contra o Atlético Paranaense, que nos deu a vitória pelo placar mínimo, mas não rendeu aquilo que se esperava no momento de sua contratação, e a chegada do craque Diego só diminuiu seu espaço durante as partidas, fazendo cada vez ele ser menos utilizado. A ironia é que os motivos do rendimento abaixo do esperado começaram a aparecer em 2017.

Durante todo o ano de 2016, Mancuello foi testado em várias posições diferentes e em várias funções diferentes. No insistente 4-2-3-1 de Zé Ricardo, o argentino jogou como Box-to-Box, Volante Construtor (muitos chamam de Segundo Volante clássico, no Brasil), Enganche (o famoso camisa 10), Carrileiro (explicado de forma exuberante pelo Marcos no post onde o mesmo falou sobre Dario Conca) e até mesmo de Ponta Interior pela direita, naquele jogo contra o Corinthians, no retorno do Maracanã, que resultou em 2x2. O grande problema é que a tática promovida por Zé Ricardo durante a maior parte de sua passagem em 2016 era muito simples, muito estruturada, com poucas movimentações e jogadores respeitando de forma excessiva suas funções em campo, entretanto, para um técnico recém promovido ao time profissional, e que pegava uma equipe de alto nível e que naquele momento brigava nas cabeças do campeonato, era entendível que uma mudança brusca poderia ser maléfica ao time no geral.
Zé preferiu esperar para colocar seus conceitos mais complexos em prática a partir de 2017. No fundo, ele sabe que uma partida de futebol nos dias contemporâneos geralmente é decidida no meio de campo. É naquele terço onde fica o gol, é ali que os jogadores com mais brilhantismo técnico geralmente estão dispostos em campo, porque abertos estão muito distantes da meta. Mas tendo Diego no time, sabendo que com Mancuello como um Volante diminuiria o poder de marcação, sobrecarregando o outro volante, e ainda querendo dar ao argentino uma função onde ele pudesse usar toda sua velocidade de raciocínio e inteligência espacial para criar perigo ao adversário, o que fazer para conseguir superioridade numérica no setor mais importante do jogo? A resposta para isso estava num termo muito pouco conhecido e muito menos ainda utilizado aqui no Brasil, o Raumdeuter.

Raumdeuter é uma palavra em alemão cuja tradução literal pode ser dada como "Investigador de Espaços". O termo foi criado para Thomas Müller, pois os estudiosos não conseguiam descrever uma função ideal para as movimentações do craque do Bayern. Basicamente é um jogador que não possui limites no campo, onde há espaço, é ali que ele deve estar, portanto, se movimentará por todo o campo buscando ser um jogador a mais em qualquer etapa de jogo, seja na criação, na armação ou na finalização das jogadas, criando superioridade numérica e surpreendendo a defesa adversária, que pode ficar confusa, principalmente se o técnico preferir por uma marcação individual (o que é extremamente ultrapassado, diga-se de passagem). Para isso, o jogador que atuar nessa condição não terá uma exigência muito grande na parte técnica, não necessitará ser um grande driblador, nem um gênio do passe, nada disso, mas precisa ser alguém com uma ótima noção de espaço e um bom tempo de reação para acelerar as jogadas.
Por estes motivos, qualquer jogador que receba a função de Raumdeuter jogará sempre 8 ou 80. Se ele está bem, provavelmente será o craque da partida ou estará entre os craques, podendo fazer gols, dar assistências, fazer jogadas importantes, ou até mesmo ajudar o time taticamente, mas se não estiver, pouco será notado e pode acabar atrapalhando a equipe com movimentações erradas ou jogadas equivocadas. Destas oscilações Thomas Müller sabe muito bem.

Interessante é que a função de Raumdeuter não está sendo utilizada pela primeira vez no Flamengo. Em 2013, na conquista da Copa do Brasil, outro jogador executou este papel, e também com maestria, trata-se de Luis Antônio. Como dito, um jogador que consegue fazer bem a função de Raumdeuter tem tudo pra se destacar dentro da equipe nos jogos, não a toa o camisa 15 da conquista do tricampeonato da copa nacional foi eleito melhor jogador das finais, e de fato era um jogador de destaque naquele time.

A conclusão que tiro é que Mancuello tem tudo pra ser um ótimo jogador para o Flamengo, até mesmo titular. Zé Ricardo encontrou sua função ideal e o hermano parece ter se adaptado bem a isto, já está mais entrosado com o time e sua adaptação ao futebol brasileiro, de forma gradual, agrada aos meus olhos. Isto tudo me gera uma grande dúvida para o futuro, uma daquelas dúvidas boas que todo torcedor apaixonado por seu clube e que gosta de estudar o futebol gosta de ter: e quando Conca puder jogar, quem deverá ser o titular do time? Por enquanto, ainda fico com o camisa 11, está provando que merece a vaga e com Dario recuperando-se de lesão, ele tem um passo a frente. Vem sendo um dos principais jogadores nesse início de temporada e um dos principais responsáveis pela invencibilidade atual do clube, tendo vencido, com ele, 100% das partidas oficiais.

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