quarta-feira, 22 de março de 2017

Nada de 3 volantes


Santiago, Chile, 15 de março de 2017. Um fatídico dia que conseguiu, para alguns rubro-negros, transformar o momento do clube do céu ao inferno. Óbvio que falo dos mais radicais, afinal, os lúcidos sabem que continuamos favoritos a terminar a fase de grupos como líder da chave e ainda somos um dos favoritos a vencer a taça.

Este radicalismo é justamente o que faz a torcida do Flamengo ser o que é. Claramente tem suas vantagens, pois nos emocionamos além do normal, lotamos estádios e apoiamos o time da forma mais intensa possível. Mas há sempre o lado negativo, o imediatismo do fracasso. Não importa quantas finalizações aplicamos no adversário, se nossa posse de bola foi de 75%, se chutamos 3 vezes na trave e o goleiro adversário fez pelo menos uns 5 milagres, uma derrota por 1x0 em um tento achado, uma bola rebatida, que bate em todo mundo e sobra no pé do centroavante caneludo pra empurrar pro gol, é o suficiente para desmoronar os adeptos, por em cheque todo o esquema tático, crucificar o jogador nota 6 e até mesmo entrar em uma contradição.

Foi exatamente o que aconteceu no jogo contra a Universidad Católica. O Flamengo fez um bom jogo, muito melhor que os chilenos, inclusive. Conseguimos neutralizar a grande maioria das jogadas, mesmo com um dos zagueiros numa noite pouco inspirada, tivemos um bloqueio de espaços digno de um time que procura ser campeão de uma competição tão concorrida como a Libertadores. Nosso sistema ofensivo ainda foi um pouco ineficiente, mas não foi ruim de todo, mas, pelo menos dessa vez, podemos colocar o fardo em Paolo Guerrero, incapaz, naquela partida, de dominar bolas que normalmente faria e acertar as jogadas, além de perder um gol que não se pode num jogo tão tenso.

Mas o que realmente intrigou no time do Flamengo, para muitos, desde o pontapé inicial, foi a escalação escolhida por Zé Ricardo. Para começar a partida, o técnico rubro-negro optou por escalar Márcio Araujo, o injustamente criticado pela torcida, no lugar da vaga que vinha sendo ocupada por Mancuello, lesionado por uma pancada na cabeã. Com isso, Arão passou a exercer a função de ponta direita, centralizando e buscando espaços pelo meio, além de jogadas em profundidade, semelhante ao que buscaria fazer o argentino. No meio campo, a mudança, o estático 4-2-3-1 passou a ser montado como 4-3-3. Se Arão era ponta direita, Marcio Araujo era o volante, tendo Rômulo e Diego funcionando como meias. Tente não confundir a palavra meia com a função de enganche (o popular "10 clássico").


Ao contrário do que muitos dizem, Zé não buscou colocar mais um volante no jogo, pelo contrário, ele tentou retirar um, dando mais movimentação ao time, melhorando principalmente a saída de bola, para tornar o time mais ofensivo, mais agressivo e mais fluido ao conseguir controlar o meio campo. E a forma mais fácil de notar isso era o pressing exercido por Rômulo, que muitas vezes marcava até ao lado de Guerrero. A grande crítica que faço a Zé, entretanto, é na insistência de Pará. O camisa 21 pode até ser uma boa peça para o elenco, uma ótima alternativa de reposição, mas taticamente acaba prejudicando a equipe ao jogar do mesmo lado de um ponta que se movimenta bastante horizontalmente (como Mancuello), pois não costuma ser um lateral de ocupar o último terço de campo, como Rodinei, por ser bastante veloz, é. O que acaba acontecendo é que, ao centralizar, Arão abre espaços no corredor direito, que deveria ser ocupado por Pará, que também tem suas origens como volante, e muitas vezes acaba centralizando junto e o time fica sem amplitude daquele lado de campo.

É importante saber também que no futebol moderno não há mais espaço para taxar um jogador por seu histórico em termos de posição. Não podemos chamar Arão de volante só porque ele sempre jogou de volante, e isto também não tem nada a ver com característica. A real posição, assim como a função, de um jogador é aquela que ele está exercendo, aquela que seu treinador o colocou naquele momento.

Se tivermos uma ideia de que cada jogador, com suas características, joga em determinada posição, somente por isso, estaremos retrocedendo a uma época que a tática no futebol praticamente inexistia, era apenas um amontoado de jogadores dentro de campo que usavam seus instintos para jogar futebol. Num pensamento como esse, Messi nunca teria sido centroavante naquele que foi considerado o melhor time de todos os tempos, pelo menos em termos táticos, em âmbito nacional, nunca teríamos visto um 4-3-3 tão perfeito, com um "meia improvisado na ponta" em 2015 (pode chamar de 4-1-4-1, é a mesma coisa), esquema que fez com que Tite fosse campeão disparado e favorito absoluto a tomar o posto de técnico da seleção. A mudança, no futebol, se for bem pensada, muitas vezes é algo que deve ser encarado com bons olhos. E é importante que se avalie o processo ante ao resultado, porque é desta forma que obtemos progresso.

2 comentáriosTeste:

  1. Acho que o principal problema foi justamente esse, colocar um volante na meia direita apenas pra tentar manter o esquema. Arão poderia ter jogado mais pelo centro onde se sentiria mais confortável.
    E 4-3-3 não é 4-1-4-1.
    Qualidade de sempre nos textos.

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