segunda-feira, 8 de maio de 2017

15 minutos após o fim do mundo


Foi intenso. Foi catártico. Foi, como diria o outro, teste pra cardíaco. O Fla-Flu dessa tarde de domingo remeteu aos mais intensos e disputados dias do clássico. Que digam que não vale nada, porque é mentira, Fla-Flu sempre vale algum coisa. Até porque é, afinal, um Fla-Flu.

O gol de Dourado deu o primeiro toque de preocupação nos corações flamenguistas, a equipe de Zé Ricardo pouco se achava e pouco jogava. Guerrero, coitado, jogava sozinho num mar de camisas tricolores. O Fluminense bloqueava as jogadas na entrada da área, e quando o Flamengo passava, esbarrava na própria incompetência errando passes, chutando errado ou tomando decisões erradas. Tudo estava errado. A começar pelos jogadores.

Pará e Berrio pareciam estar se deixando levar pelo clima cardíaco do clássico e fraquejavam em algumas jogadas. Cruzamentos ao nada e jogadas desperdiçadas, na cabeça dos mais pessimistas a derrota parecia próxima: "Não é possível que a gente errando todas, o Flu vai perdoar". Na cabeça dos mais otimistas uma decisão nos pênaltis não parecia mau negócio: "Dessa vez, Muralha irá pegar todas!", diziam eles. O jogo estava numa incerteza geral. Um verdadeiro ninguém é de ninguém.

Mas eis que aos 39', as incertezas acabaram: Gabriel cobrou escanteio e Réver com a força de mil cavalos cabeceou pro gol atropelando tudo e todos; Cavalieri, confirmando a tese de que todo goleiro contra o Flamengo emula Gianluigi Buffon, defendeu. No micro-segundo entre o rebote do goleiro tricolor e a chegada de Guerrero, os mais diversos pensamentos percorreram a mente flamenguista. Será que ele perde? Será que o zagueiro vai chegar? O peruano precisava de um marco como um gol na final para conquistar de vez toda a massa rubro-negra, e correspondeu: 1x1 no placar, gol dele.Sem mais dúvidas. Sem mais incertezas. Sem mais "caô".

Mas ainda faltava mais uma pitada de loucura nesse intenso Fla-Flu: Rodinei avançou em contra-ataque e estava de frente para Cavalieri, fora da área. Ou era gol ou era expulsão. O goleiro tricolor preferiu escolher a segunda opção. Flu com um a menos e Orejuela de guarda-metas.

O Fluminense mesmo com um a menos conseguiu um escanteio aos 48 do segundo tempo, quem tinha problema de coração e não sofreu um AVC nessa hora pode se considerar completamente curado. Um milagre dominical agraciado num grande clássico. O escanteio foi batido. A zaga flamenguista afastou; Rodinei puxou contra-ataque e Orejuela, tal como um moleque travesso fugindo do chinelo da mãe, saiu correndo de volta à meta do Fluminense. Mas de nada adiantou. Rodinei chutou cruzado e Orejuela, sem cacoete e nem braço de goleiro, aceitou para a "festa na favela" ser completa.

Mesmo enfrentando um calendário inchado, regulamentos ridiculamente esdrúxulos e arbitragens pra lá de duvidosas, Flamengo e Fluminense fizeram uma final digna de um clássico carioca. Fizeram dar sobrevida a um campeonato que suas finais já a algum tempo não mobilizava metade do que essa mobilizou. O Fla-Flu melhora tudo. É de fato o maior clássico do Rio.

Se para Nelson Rodrigues, o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada, essa final nos deu toda certeza que ele terminará 15 minutos após o fim de tudo que existe e conhecemos. Mais do que um clássico. Mais do que eterno.

*Primeiro título do blog, que seja o primeiro desse ano e de muitos outros. #SRN

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