segunda-feira, 1 de maio de 2017

Medidas Impopulares


Há 36 anos, o esquadrão imortal da Nação Rubro-Negra, após uma campanha marcada por muita superação, garra e raça – quiçá uma das mais belas campanhas da nossa gloriosa história –, chegava ao topo da América conquistando a Copa Libertadores da América. Sendo esta a grande obsessão do torcedor sul-americano, óbvio que sua torcida clamou, por anos seguintes, sua conquista. Na teoria, de uns tempos pra cá, a Libertadores virou o torneio para qual a esmagadora maioria dos planejamentos são voltados: é o campeonato que faz com que reservas sejam escalados em jogos de outros campeonatos avulsos.

Mas em 2017, ainda nos saboreamos com vídeos da magistral cobrança de Zico na final, das consequências do belíssimo soco de Anselmo em Mario Soto e até do antológico e da polêmica partida a qual a justiça prevaleceu sem podermos gabar uma segunda conquista, de outros momentos que causaram na torcida tanto alvoroço quanto os citados. O que deu errado? O que aconteceu, ao longo de todas as participações rubro-negras no torneio continental, que impediu o bi?


Não cabe a esse post propor estudos aprofundados que explorem os motivos pela qual não ganhamos títulos em outras participações.

Não penso ser justo tentar definir um motivo em específico e atribui-lo a todas as temporadas que fomos eliminados. Ainda tínhamos um grandioso time em 1982, mas nossa eliminação em pleno Maracanã surpreendeu até os membros do quadro do campeão Peñarol. Talvez o planejamento não tenha sido o ideal e o time montado para 2002 não foi exatamente um timaço. Sei que muitos torcedores, assim como eu, engolem até hoje os dois pênaltis não marcados para o Fla no jogo da volta contra o Defensor em 2007.

Mas cabe à esse texto causar uma reflexão baseada em indagações que, ao meu ver, não fazem sentido. Pense comigo: o que acontece se um governo implementa uma medida que vai totalmente contra a ideologia da maioria da população? Este, de certo, sofrerá protestos e manifestações. Quer dizer, nos preceitos da democracia que moldam alguma parte das nações do mundo, é relativamente improvável que casualidades assim aconteçam. Mas o Brasil é sempre esse caso à parte e a história, no mínimo, “movimentada” da nossa democracia, o que se tem, no meu ver, são pessoas no governo que tem demonstrado uma ideia contrária à que a maioria da população creditou. Esse conflito de ideais gerou recentes manifestações ao redor do país. E digo que ideais contrários são vislumbrados no restante do mundo: em plesbicito, suíços rejeitaram a criação de um salário mínimo a todos os cidadãos. Se o governo suíço, por ventura, ignorasse completamente seu povo, seus ideais e criasse um salário mínimo, será que não haveria o mínimo de protestos?

E bem, não é difícil reparar que, apesar das eleições presidenciais do Flamengo e dos clubes brasileiros não serem abertas a todos, os que estão lá em cima representam 40 milhões ao redor do mundo. E quando uma boa parte desses 40 milhões possui uma crença, uma ideologia enraizada em seus superegos, não é difícil pensar que isso acaba afetando o clima nos treinos, o direcionamento de planejamentos. A torcida flamenga é intimidadora por si só. E ela tem um poder já evidenciado diversas vezes (sendo o caso mais como a pressão em cima de determinado jogador, causando sua saída do clube). Penso eu que a diretoria queria mais é enxergar o Carioca como um torneio sub-20. Mas além das questões contratuais com emissoras e patrocinadoras, como driblar a torcida, a qual a parte mais velha cresceu querendo, anualmente, recuperar o sentimento de nostalgia com um campeonato que, de fato, por um tempo foi charmoso, mas que provavelmente não recuperará sua magia tão cedo? Isso é tão difícil quanto Doris Leuthard querer colocar um franco na mão de cada suíço. A pressão popular, em ambos os casos, talvez torne tudo mais difícil.

Mudar uma ideologia de determinados grupos sociais nunca é fácil. Mas é importante expor minha opinião e defende-la (e contar com o amparo de pessoas dos meios jornalísticos mais influentes com visões semelhantes para propaga-la): o Campeonato Carioca, assim como os Campeonatos Estaduais do Brasil, perderam seu valor e simplesmente atrapalham a modernização do futebol brasileiro que poderia começar com uma revisão total de seu calendário. Virou pré-temporada. Ganhar clássico, zoar aquele amigo pelo WhatsApp e derrubar técnico, aparentemente, são o que os Campeonatos Estaduais têm a oferecer. E em um momento que se disputam dois campeonatos de uma vez só, uma hora você vai ter que acabar optando por um ou outro.

Não estou dizendo para banalizar completamente as finais contra o Fluminense. A raça, a paixão precisam estar presentes sempre em qualquer partida do Flamengo, de qualquer categoria ou modalidade. Até porque é um jogo que moleques dariam a vida para mostrar serviço. O que acontece é que o FlaFlu desse domingo não é o jogo mais decisivo da temporada e faz parte de um campeonato que perdeu totalmente seu porquê.

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