quinta-feira, 29 de junho de 2017

Os traços de Mourinho: "retranqueiro" ou reativo?

Na temporada europeia de 2003-04, trouxe-se a tona uma nova revolução tática no futebol mundial. O futebol pragmático e pouco organizado, baseando-se nos talentos individuais praticamente acabaria (não que tenha sido a primeira vez, vejamos as clássicas seleções italianas e o carrossel holandês) após a consumação do que até então era chamado de zebra, o título da Champions League conquistado pelo Porto, time comandado por José Mourinho. Embora não tenha havido uma final extremamente difícil, contra o Monaco, deve-se levar em conta que o time francês eliminou os poderosos galáticos do Real Madrid, que contavam nada mais nada menos que com Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Beckham, Raúl, Casillas, entre muitos outros,  e o Chelsea que vinha crescendo exponencialmente ao longo dos anos. Por outro lado, o próprio Porto eliminou, antes da final, times como Manchester United, um dos favoritos ao título, logo nas oitavas, o Lyon e, na semifinal, o melhor time da história do Deportivo La Coruña, de Djalminha e Mauro Silva.

Certo que aquele Porto tinha Deco, um jogador extraordinário, mas era um time bem abaixo dos favoritos, que tinha a grande promessa Carlos Alberto (hoje no Atlético Paranaense) como titular. E o que aquele time trouxe foi um show de novidade táticas, organização, principalmente defensiva, intensidade e marcação setorial, diferente da marcação individual que até aquela época era muito utilizada. Entretanto, por dar show em inovações sobretudo no aspecto defensivo, até hoje o português é tratado como um técnico defensivista, um "retranqueiro" no modo grosso de se falar, e é isto que precisamos quebrar aqui.
Há uma enorme diferença entre possuir um futebol defensivista e um futebol reativo, mas que muitas vezes ambos são bastante confundidos principalmente por torcedores mais emocionais e que se levam facilmente nas escolhas momentâneas do treinador de seu time. José Mourinho, assim também como Carlo Ancelotti, é um dos grandes pilares do jogo reativo no cenário mundial. O futebol reativo, como seu próprio nome já sugere, é dado pela reação, ou seja, pela adaptação do seu time perante ao adversário. Técnicos reativos privilegiam o estudo de seus adversários em detrimento à criação de um padrão de jogo e isto muitas vezes cria uma certa indignação em torcedores pouco acostumados com estes sistemas, que acabam não aceitando certas variações apresentada pela própria equipe. Um técnico "retranqueiro", por sua vez, privilegia o padrão de jogo em detrimento à adaptação, não importará o adversário, seu time quase sempre deverá buscar diminuir suas linhas, compactar-se e buscar o jogo rápido e direto.

E por que aqui, num blog sobre o Flamengo, estamos tanto falando em futebol como um todo? Na verdade, acontece que Zé Ricardo é um reflexo quase que completo da figura de José Mourinho, claro que sem seu ego, intensidade e estresse em níveis astronômicos, mas em nível tático podemos perceber uma grande semelhança de ideias entre o "Special One" e Zé (coincidentemente, ou não, chamado por um amigo meu de Mourinho dos trópicos). Zé Ricardo é extremamente reativo, estuda os adversários e busca se adaptar a eles, adequando seu time à forma como ele enxerga que pode vencer o confronto coletivo.

E é interessante observar algumas críticas feitas pelos torcedores, por vocês em geral, onde é dito que o Flamengo atualmente não possui padrão de jogo. Na verdade isso é realmente um fato, mas é preciso entender que no futebol não há uma receita de bolo para se ganhar partidas ou campeonatos, não é uma fórmula tática perfeita para se conseguir um resultado. Guardiola e seu futebol ofensivo e moderno ganhou muitos títulos ao longo da carreira, inclusive muitos contra Mourinho, o que também não impede de Conte, um meio-termo entre o defensivo e o reativo, e Ranieri, defensivo, terem sido os dois últimos campeões ingleses, ou mesmo Zidane, também bastante reativo, ter ganhado por duas vezes seguidas o título máximo europeu, algo inédito desde que a Champions teve seus novos moldes. No Brasil vemos o mesmo, temos um técnico, este sim defensivista, como líder absoluto do Campeonato Brasileiro, enquanto o moderno e ofensivo Roger Machado ainda sofre para conseguir com que seu time absorva todos os seus complexos conceitos táticos.
Faz-se por necessário quebrar o paradigma de que se obter um padrão tático é algo que só tem benefícios, quando na verdade a falta de padrão também é uma virtude, dependendo de como a mesma é feita. Desde que o time mantenha-se organizado em diferentes estilos de jogo, não ter um padrão pode se tornar muito perigoso para o adversário, já que é muito difícil conseguir prever como o time jogará, entretanto, também existem aspectos negativos, pois esta falta de padrão sempre sobrecarregará a figura do técnico. Enquanto um técnico que privilegia o padrão de jogo terá mais facilidade para evoluir seu time quando consegue encaixar o seu estilo de jogo à equipe, um técnico reativo precisará sempre se inovar, já que todos os jogos vão ser tratados de forma completamente diferentes, isto faz com que pequenas escolhas erradas possam alterar fortemente no desempenho e era este o principal defeito.

Em uma partida de futebol, assim como qualquer esporte, existem inúmeras variáveis que comprometem o resultado e o treinador deve pensar nos mínimos detalhes para vencer. Em qualquer erro coletivo, o técnico sempre será o responsabilizado, já que a escolha do plano de jogo e das peças em campo foi completamente dele e de sua equipe e não a que já estava determinada por um certo padrão. Esta variação também exige do próprio treinador estar antenado sobre estilos de jogo muito diferentes e por vezes até opostos. No próprio Flamengo de Zé Ricardo, já vimos muitas vezes o time jogar com um belo jogo de posição, defesa alta, dando importância ao toque de bola e o controle do jogo, mas também já vimos logo em seguida a defesa baixar e a equipe buscar o jogo direto devido a um aumento de pressão do adversário, o que não é necessariamente algo ruim se for bem feito, como foi comprovado ontem contra o Santos, onde mesmo com as linhas mais baixas no segundo tempo, o Flamengo conseguiu ótimos conseguiu ótimos contra-ataques com Berrío e o que gerou o segundo gol, de Cuéllar.

O torcedor em geral deve entender que qualquer estilo de jogo ou qualquer aspecto tático tem seus prós e contras, nada é perfeito, se fosse não precisaria nem haver competição. Entendo que a busca por um DNA ofensivo é obcecante para o fanático rubro-negro, mas não deve ser uma regra, nossa regra deve ser apenas uma e descrita no nosso hino "vencer, vencer, vencer", e maus momentos também acontecem, só precisamos ter paciência e saber do que podemos reclamar, pois a força do torcedor pode ser nosso maior mal, já que algumas decisões podem ser irreparáveis e o arrependimento é o que fica, e se quiserem um exemplo, perguntem os amigos colorados, porque nem sempre a mudança é algo positivo.

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