quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O novo Falso 9

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Na partida do dia 19 de agosto de 2017, dada a falta de centroavantes no time, tanto Guerrero quanto Vizeu lesionados, Reinaldo Rueda decidiu ser ousado e inovador, apostou no que ninguém mais apostaria. Na ousadia, o time finalmente conseguiu, embora contra o lanterna do campeonato, uma certa dominância durante toda a partida.

A ousadia está justamente em arriscar, pensar algo diferente dos demais. Não porque esse tal Falso 9 dito no título do artigo seja novidade no mundo, mas da forma que foi aplicado. Neste post buscarei fazer uma análise sobre o posicionamento do Falso 9 e como Lucas Paquetá foi utilizado na posição.

A primeira coisa que temos é a mais óbvia. Chamamos Lucas Paquetá de Falso 9 na partida contra o Atlético Goianiense porque de fato ele teve uma movimentação semelhante ao protocolar dado pelo tradicional Falso 9: localizar-se entre as linhas de defesa e meio campo, criando uma confusão na marcação, afinal, não é um centroavante mas também não é um meia, então quem o marca, o volante ou o zagueiro? A diferença está justamente no estilo de jogador usado para ela.

Estamos acostumados a ver um Falso 9 como um jogador de muita habilidade, bom drible, capacidade de arrancadas e que possa algumas vezes dar passes para deixar seus companheiros com possibilidade de marcar gols. Foi assim que Lionel Messi obteve destaque na posição, inclusive marcando 91 gols no ano de 2012, recorde histórico absoluto. Outra versão do Falso 9, muito mais comum na Alemanha e feita normalmente por Roberto Firmino no Liverpool é a do centroavante que tem como principal característica elevar o nível de seus companheiros, não com passes nem finalizações, mas com movimentações que os deixam sem marcação, Firmino é reconhecido por isso, mesmo com poucos gols e assistências, segue indiscutível como titular e um dos principais jogadores do time de Jurgen Klopp justamente por conseguir deslocar defensores para que seus companheiros estejam sempre livres para marcar.

Entretanto, aqui é diferente. Poderíamos ver facilmente Vinícius Júnior fazer a função do Falso 9 por sua característica notabilíssima de passar facilmente pela defesa com drible curto e velocidade, o próprio Geuvânio, que tem o chute de fora da área como uma das principais características e que poderia apanhar a defesa distante e com isto ter possibilidades de arriscar seus chutes. Diferente disto, Rueda optou por abrir seus jogadores mais incisivos e explorar um "Falso 9" um pouco distinto do original, claro, mantendo sua essência. A preferência por Paquetá, um meia tradicional, "clássico", teve por consequência, e talvez pensada previamente pelo colombiano de conseguir encostar seus jogadores de lado à meta adversária e incentivar as infiltrações.
Perceba a movimentação de Lucas Paquetá, recuando ao invés de avançar como um atacante normal faria.
O gif demonstra justamente o movimento que caracteriza o Falso 9. Enquanto um centroavante tende a "prender" os zagueiros e permitir com que os meias trabalhem entre as linhas, o falso 9 faz justamente o contrário, ele busca sempre soltar pelo menos um dos zagueiros da sua zona de atuação, ocupando o lugar onde os meias tendem a se posicionar. A falta de marcadores gera justamente a confusão no defensor, que não sabe se guarda sua posição para impedir as infiltrações, deixando assim o falso 9 livre para receber a bola, ou vai à caça confiando na capacidade de cobertura de seus companheiros.

A verdade é que isto é muito mais do que apenas estudar os espaços do jogo, mas buscamos estudar também o tempo. Qualquer um de nós sabe que milésimos de segundo são decisivos para um time marcar um gol ou não. Se um jogador antecipa um pouco sua passada ou se a diminui pode mudar completamente a situação do jogo, ou seja, jogadas se concluem por causa de frações de segundo.

Neste caso, não se diz nem a questão da velocidade de Vinícius Júnior no seu primeiro gol, mas justamente ao movimento de Lucas Paquetá. Se reverem o lance, podem perceber que momentos antes do passe de Márcio Araujo, o camisa 39 fazia justamente o movimento que notabilizava sua função em campo, o movimento demonstrado no gif, isso pode ser percebido porque Vinicius Junior já estava a frente de Paquetá quando partiu em velocidade. A grande questão aqui é que o zagueiro pela esquerda do Atlético-GO estava para acompanhar Paquetá, foi "caçá-lo", enquanto o outro ficou para a sobra, porém completamente confuso. Esta confusão durou centésimos ou milésimos de segundo, o suficiente para que Vinícius a explorasse e corresse, ultrapassando-o com facilidade e ficando de cara com o goleiro para marcar.


A inteligência de Rueda é percebida não em querer explorar o Falso 9 como uma função que geralmente potencializa o jogador que a faz, mas, assim como Firmino, buscar potencializar os companheiros deste jogador. Ao fazer os movimentos de recuo, Rueda queria que Vinícius Júnior e Geuvânio, o segundo não com tanto sucesso, conseguissem ser mais produtivos, e não Lucas Paquetá.

Ainda assim, diferente de Firmino, além de termos um jogador com movimentação capaz de criar perigo aos adversários através de seus companheiros, Paquetá sempre teve por característica o último passe e a visão de jogo, sempre foi muito agressivo na hora de construir jogadas, e isso só acrescenta na hora de se finalizar as jogadas e de confundir os defensores. Temos aqui um jogador muito perigoso se for marcado, pois acabaria dando espaço para seus companheiros, como Firmino, assim como um jogador que, se tiver espaço, dará um jeito encontrar uma jogada no fundo capaz de criar uma situação de risco para o adversário, seja com passes ou finalizações, neste caso, mais próximo do Falso 9 feito por Messi.

De fato, Rueda parece querer dar ao time não necessariamente mais modernidade, isto na verdade acaba aparecendo por consequência, mas sim poder de agressividade no ataque, ele busca potencializar seus talentos através da troca de posição, tornando o ataque muito menos estático, mais fluido. O mito de que o centroavante sempre tem que ser o cara dos gols já foi quebrado a muito tempo, porém, alguém precisa marcá-los, e é isto que o nosso novo técnico parece correr atrás, afinal, não há adversário mais perigoso do que aquele que você nunca sabe o que vai fazer.

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