quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um labirinto

Diante de uma chocante e revoltante notícia da saída do técnico Reinaldo Rueda do comando do Flamengo para assumir a seleção do Chile, fora da Copa do Mundo de 2018, a diretoria Rubro-Negra viu-se em uma espécie de labirinto, sem conseguir andar em negociações com outros treinadores, já que não há mais tantas opções no mercado ao passo que não podia dar um fim logo a essa novela, pois dependia unica e exclusivamente da decisão de Rueda.

Embora não seja exatamente sobre isso que eu queira discutir nesse artigo, é necessário que se diga, e que talvez seja óbvio, que o problema com Rueda nunca foi abandonar o barco em busca de seus objetivos. Se isto está sendo afirmado no contrato, é moral e eticamente correto escolher aquilo que acha melhor para si próprio. O grande problema, porém, passa no silêncio ocorrido durante todo o processo, o colombiano praticamente sumiu, não concedia entrevistas, não falava em público, não conversava com a instituição pela qual trabalhava acerca de sua decisão, o que fez com que o Flamengo ficasse de mãos atadas, preso sem saber o que poderia fazer, sem saber se deveria correr rápido a um mercado escasso ou se deveria confiar então treinador. Mas por que essa prisão?

Uma das grandes problemáticas que vivemos no futebol brasileiro é a falta de treinadores de muita qualidade dentro do país. Basta alguém com talento e empenho para desempenhar a função de reger uma equipe que já acaba sendo automaticamente vitorioso, ou ao menos mostrando que consegue superar os limites daquela própria equipe. E com isso temos os exemplos, principalmente, de Tite, Jair Ventura e Fabio Carille.

A excelência, portanto, não vem da experiência. Ora, dois dos três nomes aqui ditos são relativamente muito novos em relação a média daquilo que é dado como aceitável na maioria dos clubes brasileiros. O outro, Tite, atualmente com muitos indiscutíveis méritos treinador da Seleção Brasileira, precisou passar por uma verdadeira renovação para tornar-se um treinador de nível mundial, o único brasileiro hoje. Se a tal experiência fosse de fato o fator determinante, essa "bagagem" que tanto falam, e que por este motivo fez com que Zé Ricardo fosse demitido (e não por sua evidente falta de qualidade e modernidade), portanto os grandes vitoriosos dos nossos campeonatos seriam caras como Marcelo Oliveira, Oswaldo de Oliveira e Vanderlei Luxemburgo, ou nomes mais antigos como Felipão e Joel Santana.


Mas a valorização do que é nostálgico não basta apenas para os cartolas, não basta apenas eles irem em buscas dos Luxemburgos da vida acreditando que um currículo de 10, 15 anos atrás é válido numa profissão que tanto se muda, que tanto se inova durante o tempo, não basta, é preciso que a torcida também compre essa ideia. Compre a ideia de que o que é novo é algo que não deve ser enxergado como bom porque aquele treinador "não tem experiência para o Flamengo", e assim somos fadados ao mesmo fracasso de sempre, essa involução perpétua. Será então que foi Rueda que nos colocou nesse labirinto? Temos todos uma parcela de culpa nessa história.

E não adianta negar, você (leitor deste artigo) acredita mesmo que sorriria de orelha a orelha caso um técnico muito promissor assinasse com o Flamengo hoje? E após assinar, você teria paciência caso ele, mesmo mostrando evolução tática e técnica na equipe, sofresse com alguns resultados negativos e até possíveis eliminações? Nós, brasileiros e amantes do futebol, temos dois grandes problemas que afetam nosso futebol: o resultadismo e o imediatismo. Resultadismo porque o processo nunca pode ser maior que o resultado e imediatismo porque nada pode ser planejado, nada pode ser feito a longo prazo, se não agora nunca mais.

E diante disso, heis que surge um nome, que acredito que representaria a saída de nosso labirinto, mas que dificilmente teria um destino diferente ao que a grande maioria tem por aqui, a demissão precoce. Este nome é Cláudio Tencati.


A partir da demonstração da grande qualidade proporcionada por Tencati no futebol paranaense, ele teve uma das passagens mais duradouras de um técnico brasileiro nos últimos tempos, permaneceu durante 6 anos e 7 meses no Londrina. E não só isso, durante esse tempo, com um time bastante inferior aos grandes do estado (Coritiba e Atlético), conquistou o título estadual em 2014. Vale lembrar que quando assumiu em 2011, o clube encontrava-se em uma crise desastrosa que quase o levou a terceira divisão do estadual na temporada anterior e, nesse mesmo ano (2011), não só conseguiu o acesso de volta a elite do futebol estadual como foi campeão da Divisão de Acesso. Nos anos 2014 e 2015, Tencati levou o clube do Londrina da Série D à B, onde permanece até hoje. Como se já não fosse o suficiente, foi campeão invicto da Primeira Liga de 2017.

O grande problema da questão é: por que esse currículo é menos valioso que o currículo de um Dorival Júnior? Ou de um Abel Braga? Sem dar deméritos, claro, acredito que ambos citados ultimamente são bons até certos pontos, mas a dificuldade de se criar grandes técnicos passa principalmente por nossa recusa a aceitar o que é novo e que não é nosso, o nosso egoísmo de importar aquilo está dando certo, que se mostra bom. A entrevista recente de Luxemburgo ao Fox Sports é o retrato disto, quando é dito que o Brasil tem de parar de imitar a Europa e temos de voltar ao que era como antes. O fato de importar conceitos do que há de melhor no futebol mundial só tem a acrescentar em nossa originalidade, nossa criatividade. Um técnico ainda vai precisar ser inteligente nas substituições, nos métodos de treino específicos para os atletas, no duelo tático contra determinado adversário, mas pode muito bem usufruir daquilo que foi descoberto por Guardiola, Mourinho, Conte, é assim que a ciência evolui, é assim que o futebol deve evoluir, também.

Enquanto esse pensamento resultadista e imediatista permanecer sob o senso comum com a reverberação da mídia, o futebol brasileiro está fadado ao insucesso. Que nos reste pelo menos mais Tites que surjam como novos messias de nosso esporte, pois caras como Tencati não vão parar de existir, e nós continuaremos ignorando-os.

Nenhum comentário:

Postar um comentário